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Subúrbio: Só quem nasceu, viveu, sabe.

Só quem nasceu e morou na Zona Norte do Rio de Janeiro sabe o que é. Eu cresci em Piedade, bairro cravado entre Abolição, Quintino, Encantado, Thomás Coelho e Engenho de Dentro.

Até meus 13 anos de idade corri pelas ruas de Piedade como flecha. Subi e desci a Rua Ijuí como se fosse meu quintal, e era. De tempos em tempos me dividia entre brincar na Ijuí [ com Felipe, Renato, Wilian, Power, Rafaeis, Luzia, Aline, Suelen, Verônica… ] e brincar na Rua Padre Manoel da Nóbrega com os irmãos Cosme e Márcio - e outros garotos mais, digamos, ‘flutuantes’.

Na Ijuí eu me sentia mais ‘na turma’. Cosme e Márcio eram mais barra pesada - mas de boa. Brigavam muito, tinham, cada um, um projeto de autoafirmação constante, era mais tenso e, para piorar, costumavam não se dar bem com a galera da Rua Ijuí.

Neste vai e vem, jogando futsal [ na época era Futebol de Salão ainda ] no Clube Piedade aos domingos, brincando de polícia e ladrão entre as ruas Porto Valter, Antônio Vargas, Maria Vargas, Av. Suburbana, Ijuí e Padre Nóbrega, horas dançando break [ ou achando que estava ] no taco corrido do meu quarto com os LP’s que eu e Renato [ Caveira ] arrumávamos emprestado ou eu ganhava do meu pai - fui virando um moleque suburbano.

Na esquina da Ijuí com a Padre Nóbrega cheguei a ouvir meio sem querer histórias que me impactaram muito, como brigas de torcidas [ nessa região haviam pelo menos quatro sedes de torcidas organizadas dos quatro grandes do Rio. As mais próximas da minha casa eram uma do Flamengo e uma do Vasco ], brigas de baile funk, ou sobre quem estava sumido porque pegou muito pó fiado na boca de fumo e não tinha dinheiro para pagar. Triste.

No lado saudoso, estão o sacolé da Dona Bela, o futebol no asfalto, a correria pra pegar doce no dia 27 de setembro. A professora Tânia Mara, de história, da E.M. França e a professora Luciene, quando ainda estudava no Colégio Piedade - UGF (1989) e ainda podia chamar professora de 'tia'. As tantas meninas que fui apaixonado e nunca me deram bola, Alines, Rosângelas, Julianas [Mota Barbosa, acho] … O título de ‘beijoqueiro’ dado a mim pela professora de geografia Lúcia Bispo [ eu fui precoce, pelo menos beijando ]. Esse título eu preciso dividir algum mérito com a primeira menina que beijei e que namoramos escondido por algum tempo e, talvez, até hoje a mãe dela não saiba que isso acontecia: Aline, também.

Tive medo de brigar a partir de uma certa idade. Não que eu gostasse de brigar, mas antes, se uma briga começava, todos corriam para separar. Ser marrento não doía tanto. Certo dia comecei a ver que isso não estava acontecendo mais. Brigas mais sérias e quem separava passou a assistir. Por conta das histórias de torcidas organizadas passei a ter medo de usar meu boné com o escudo do tricolor carioca na rua. O subúrbio não é para amadores e ser escaldado, prevenido, é bom para a vida.

Vi meu pai fundar junto com amigos a banda Mocotó do Padre [ banda de carnaval nascida ‘em volta’ do mocotó do bar do João ]. Isso é um momento importante. A banda virou bloco e desfilou apenas um único ano, e acho que um único dia. Antes era só o Terremoto, bloco de sambas enredos campeões. No ano seguinte o Mocotó não desfilou mas doou seus dois bonecos ‘a lá Olinda’ - feitos por meu pai e pelo também artista plástico Zé da Penha - para o Terremoto e, mais que isso: Piedade passou a ter blocos todos os dias, em ruas diferentes. Lembro-me pelo nome só do Só Limões, fundado por beberrões da Rua Solimões, a cinco quadras da minha casa. Não sei como está hoje em dia.

Torci para a Mangueira. Chorei escondido pela Mangueira. Subi e desci da goiabeira. Cai de lá também algumas vezes. Nas cicatrizes de infância o subúrbio entrou em mim. Para sempre. É uma formação que livro nenhum tem condições de exprimir. Só quem vive sabe o que é atravessar Cascadura para chegar em Madureira. Só quem viveu a feira sabe o que é a xepa. Só quem estourou o dedão do pé no asfalto jogando bola sabe que o curativo pode esperar até mais tarde. Só quem cortou o dedo no cerol, quem dançou quadrilha, quem pegou chuva, quem teve desarranjo pelos doces de dia das crianças. Quem entrou na igreja e na macumba. Só quem correu para chegar primeiro na fila do refeitório do colégio para comer arroz doce, macarrão com ensopado é que sabe. Saudade.

Nesse clima, evocando a quentura dos corpos suburbanos e dos meio-fios da cidade, de quem sobe e desce ladeira, eu conversei com Chico Tadeu, rapper de Madureira, que fala muito dessa raiz morro-asfalto. Chico fala da Portela também. Salve!

Chico Tadeu - rapper da Zona Norte do Rio de Janeiro, mais especificamente de Madureira, trouxe suas reflexões sobre as transformações vividas durante a pandemia.

[Entrevista realizada em 18 de Abril de 2020]

Chico Tadeu

@chicotadeu

https://youtu.be/pQSNMbq5Uhg